Como eu disse uma vez, não costumo ler de cara a matéria que deu origem à manchete do dia. Pego os jornais e procuro, geralmente, os cronistas dos quais eu gosto. Hoje por exemplo é dia da Cora Rónai, de O Globo. Lá fui eu direto para sua crônica enão é que ela bandidamente me pegou pelo pescoço? Não tenho gatos, não quero tê-los por falta de espaço e também por egoismo. Não se tem gatos; os gatos é que tem a gente. Isso é o que sempre eu achei. Tive um gato na minha mocidade, viralatas legítimo, que me ensinou essa lição: os gatos é que são donos da gente. O meu gato, Brasinha era o seu nome, costumava ser o dono da casa e não adiantava minha mãe querer achar o contrário. Ele tinha seu canto preferido, não sujava a não ser no vaso (juro), e para comer eu tinha que providenciar diàriamente uma sardinha ou um bifinho cru, sem tempero. Naquele tempo ainda não se falava em ração animal. Mas eu morava num sétimo andar, ainda em São Paulo.
Pois não é que o Brasinha descobriu que no mesmo prédio existia uma fêmea? Não sossegou mais, até cometer um ato extremo. Já que seu pretenso dono não lhe facilitou a vida, ele mesmo tomou outra atitude: tentou voar para tentar chegar perto de sua amada. É claro que uma queda de 7 andares não é pequena, até para gatos. O Brasinha foi para o ceu dos gatos e eu decidi: gatos, nunca mais.
No mesmo dia, eu tinha que fazer um exercício de interpretação na Escola de Arte Dramática, com minha professora Dorothy Leirner. Não devia dizer uma única palavra, só expressões faciais. Exercício simples: subir numa escada e desce-la. Quando chegasse ao alto, começava o exercício. Tinha que mostrar grande alegria e começar a descer. À medida que descesse, a expressão teria que mudar para tristeza.
Aí, tive meu grande achado; era só usar a memória emotiva, o Brasinha, claro.
Lá no alto lembrei das alegrias que ele tinha se dignado a me proporcionar e fui descendo. No meio, já estava me lembrando de seu corpo estatelado no chão. Não preciso dizer que terminei o exercício em lágrimas. Nunca contei o segredo de como cheguei a esse resultado no exercício.
A professora Dorothy Leirner achou estupenda a atuação, ainda mais vindo de um ator que não parecia muito interessado em interpretações piegas; eu preferia o teatro político, era mais de acordo comigo.
Aí eu volto para a Cora Rónai. O título de sua cronica é "Adeus ao Canalha Amarelo". E o Moska, esse o nome do gatinho dela, teve um fim diferente, mas também conviveu com ela, e intensamente, parece. Até também ir para o ceu dos gatos.
Entendo as razões da Cora. Mas, no caso do meu Brasinha primeiro e único, não posso nem pensar em chamá-lo de canalha, que ele também foi. Para quem morreu tentando chegar a sua amada do momento, foi uma morte gloriosa. Mas o canalha fui eu. Por ter faturado um exercício de interpretação e por não ter entendido que os gatos afinal também amam.
Fui.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
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